Abaixo podemos ter como inspiração um trecho do livro de Bartolomeu Campos de Queirós, onde nos dá a possibilidade de reflexão sobre uma questão recorrente dentro das escolas e fora dela: O Saber cientifico x Saber particular.
Em nossa sociedade, devido a perspectiva capitalista que encaramos a aprendizagem, o saber mais valorizado é o cientifico, porém o trecho abaixo vem exatamente para mostrar um outro ponto de vista, que vai contra o que observamos normalmente.
MENINO DE BELÉM
(...)
- Que menino é esse menino? - perguntou o vento.
- É o Menino de Belém - respondeu a nuvem.
- De onde vem e para onde vai? - indagou o pássaro.
- Vem das águas e viaja pela terra. Falou a árvore.
- Não tem medo da solidão? - pensou o peixe.
- Não. Ele é feito de coragem e conhece a leitura - adivinhou a chuva.
E como sabia ler esse Menino de Belém. Lia a direção dos ventos para vencer as correntezas e enchentes. Lia a cor do céu e desvendava a direção das chuvas e tempestades. Lia a cor das águas e conhecia a profundeza do rio. Lia o amor no cuidado das árvores ao madurar os seus frutos. Por desvendar a escrita da natureza, nenhum perigo visitava seu peito. Seus dias, sem o peso da tristeza, nasciam sempre cheios de auroras. E se a dúvida ameaçava de manso, ele confirmava sua leitura reparando o rumo do vôo dos pássaros, observando o caminho dos peixes, escutando o recado do silêncio. O mundo é um grande livro e precisa muitos alfabetos para desatar seus encantos.
Quem sabe assim ler, eu pensava, não carrega medo em suas andanças. Quem decifra o livro da natureza, ganha de odos e coragem. E o menino, por assim bem ler, tinha a escrita na ponta dos dedos: pescava, remava, tecia, colhia, plantava e amava. Mais nada era necessário. Sua vida estava completa. Para ser rico é preciso quase nada. E vivia feliz, o Menino de Belém, navegando nas mesmas águas dos irmãos do Ver-o-Peso. Escreviam juntos suas histórias na linha longe do horizonte liquido, onde o coração decifra tantos sinais.
Ah! Menino de Belém, como invejo sua fortuna de ter o Amazonas como mestre. Invejo sua escola com paredes de água e céu. Escola enfeitada de floresta e estações, ensinando tantos alfabetos e leituras para melhor surpreender a vida em cada instante. Como sonho em ter como meus os seus companheiros: aves, peixes, vento, árvores, nuvens e estrelas. Admiro sua coragem ao vencer esse mar de águas sonhando com o reino da cobra-grande e Iara. Como desejo possuir seu desmedo em passear entre a matinta-pereira, o curupira, o boto, com a alma clara. E mais ciúmes eu sinto pelo seu amor ao mundo.
Ah! Menino de Belém, diante de você não sei nada!
QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Menino de Belém. Rio de Janeiro: Editora Moderna, 2003
A natureza faz parte de nossa composição como seres humanos, é necessário que tenhamos essa consciência desde nosso nascimento até o término de nossa existência nessa terra, para isso é importante que nosso contato seja o mais frequente possível, e a escola pode contribuir de forma significativa para esse aprendizado. Parabéns, ao grupo! Por me lembrar quem sou; sou natureza!
ResponderExcluirPois é Naide, nem gosto muito de usar a palavra "natureza", me dá a impressão de que nos colocamos como algo a parte. O contato se dá o tempo todo, nós no nosso no cotidiano é que desprezamos esta relação. Hoje vivemos o tempo em que é preciso dar um tempo para ter tempo.
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